Foto: Raphael Müller | Ag. A TARDE

Amadeu disse que a mudança constantes de treinador prejudica a implementação de uma filosofia sólida de trabalho

Apesar de relâmpago, a passagem de Carlos Amadeu no comando técnico do Vitória foi a mais proveitosa dentre os treinadores que assumiram o clube nesta temporada. Com exatos 42 dias e nove jogos disputados, o comandante derrubou o tabu de triunfos fora de casa e conquistou um aproveitamento de 48%. Durante o tempo que trabalhou na Toca do Leão, Amadeu ainda emplacou a maior sequência sem derrotas do clube no ano, com sete partidas de invencibilidade.

Em entrevista exclusiva ao Portal A TARDE, o técnico abriu as portas de sua casa e falou sobre o período em que esteve no comando do Rubro-Negro e o que pensa para o futuro de sua carreira como técnico.

Confira as declarações do ex-treinador do Vitória que, além de contar em detalhes a respeito da forma como recebeu a notícia do seu desligamento ao clube, ainda falou sobre a sua relação com o atual presidente do Leão, Paulo Carneiro:

Você esteve a frente do Vitória durante nove jogos, sendo que perdeu apenas dois. Acha que sua saída do time foi precipitada?

Eu diria que quem dirige e está a frente do processo toma a decisão que lhe cabe. Essa foi a decisão tomada pela direção do clube e cabe a gente respeitar. Mas eu entendo que todo trabalho precisa de um tempo de maturação e, quando temos foco neste processo, e não foco no resultado em imediato, vai surtir efeito desde que você escolha as pessoas corretas. Se você coloca uma pessoa em um cargo, precisa que seja dado confiança e credibilidade que, naturalmente, as coisas irão fluir de forma tranquila. Temos uma cultura no nosso futebol que a cada duas, três derrotas se troca o treinador isso gera instabilidade.

No entanto, em decorrência do contexto que o clube vivia na temporada, no momento em que você assumiu – 20ª posição, último colocado – essa ideia de resultado imediato não seria algo primordial?

Creio que sim, sempre o resultado será prioridade no futebol. Mas acredito que com o treinador anterior, Osmar Loss, pode ser que viesse também. Não estou defendendo a figura do comandante “Carlos Amadeu”, eu estou defendendo o processo que, na minha visão, é mais importante. O resultado pode não vir de imediato, apesar de que veio comigo e vencemos os primeiros dois jogos. Nos sete primeiro jogos, tivemos um aproveitamento de 64%. O problema é que antes o time tinha um aproveitamento de 26%. Quando você confronta esses números, existe uma inquietude muito grande porque todo mundo queria que chegassemos logo na zona de classificação, só que deu para chegar, no máximo, em 14º. O contexto era muito mais profundo.

Você falou dessa questão do aproveitamento baixo quando você assumiu o time. Existe algum motivo que você percebeu que pudesse relacionar esse mau momento?

É difícil falar do que precedeu a minha chegada. Mas o que pude perceber no período que passei, é que havia uma comissão técnica comprometida, competente e via um grupo de atletas querendo mais, porém inseguros com o baixo rendimento. No entanto, eles percebiam que já havia, mesmo que pequena, uma crescente no período pós-Copa América, com Osmar Loss. Enquanto os demais clubes tiveram recesso, eles estavam lá trabalhando e não tiraram férias. Conseguimos uma sequência boa com a minha chegada, mas logo depois vieram essas duas derrotas contra Guarani e São Bento e isso trouxe novamente uma pressão para o grupo.

No dia seguinte a derrota para o São Bento, veículos locais davam sua saída como certa, mas você garantiu que não. Como foi o contato com o presidente Paulo Carneiro informando a saída?

Pela manhã, eu recebi uma série de telefonemas muito cedo e depois peguei as mensagens com alguns sites divulgando o meu “pedido de demissão”. Tratei de entrar em contato direto com minha assessoria e desmentir o fato, porque não havia motivo algum para eu pedir demissão, nem passava pela minha cabeça essa possibilidade de sair do clube. Foram nove jogos apenas, 42 dias comandando e eu entendia que o aproveitamento era muito positivo. Quando desembarquei em Salvador, fui comunicado ainda no aeroporto sobre meu desligamento do Vitória. Quem me informou foi o Alarcon (Pacheco), gerente de futebol.

Ainda falando de PC, muitas pessoas comentam a respeito do estilo até um pouco explosivo do presidente. Como era a relação entre vocês dois?

Tranquilo. Sempre me relacionei muito bem com Paulo, desde minha primeira passagem pelo Vitória, entre 1991 e 1995. Naquela época, na base. Ele é um presidente mais atuante na rotina do clube, trabalha mais como um diretor de futebol e tem suas opiniões, seus pensamentos, mas também tem uma característica muito importante que é respeitar as decisões da sua comissão técnica.

Nessas partidas, a torcida Rubro-Negra pegou bastante no seu pé em decorrência de algumas opções tanto na montagem do time titular, quanto nas substituições. Acredita que isso pode ter também pesado na decisão?

Sinceramente, eu não sei. Eu soube até que houve uma pesquisa a respeito da minha saída e a torcida se posicionou, mais de 60%, contrária a decisão. Na verdade, o torcedor de uma forma geral reconhecia que o trabalho estava sendo bem feito. Ele percebia que, apesar de algumas divergências com relação a montagem do elenco, quem vive o dia-a-dia é o treinador. Às vezes a torcida e a imprensa não entende uma escalação, mas ela possui uma lógica.

Uma das contratações mais badaladas do Vitória na temporada, o atacante Caicedo chegou a dar uma declaração ontem, em entrevista coletiva, alegando que não havia espaço para ele no seu esquema tático. Na sua visão, essa afirmação procede?

Amadeu comenta sobre demissão do Vitória: "Não havia motivos para sair" (2019) 1
Foto: Raphael Müller | Ag. A TARDE

Eu não vi essa entrevista dele, então é complicado de me pronunciar. O que eu posso falar é que ele teve espaço nos três primeiros jogos, entrando como titular. Nessas ocasiões, optamos por usar dois centroavantes. Não é um sistema que garante um bom controle de jogo, a bola ficava muito viva no pé do adversário. Então, a partir do quarto jogo, sentimos a necessidade de colocar apenas um atacante e povoar o meio-campo. Jordy é um jogador que joga na mesma posição que Anselmo e a gente estava tentando fazer com que ele jogasse pelos lados. Só que no Equador, já estava acostumado a jogar de 9 e, quando atuava mais aberto, era sem a responsabilidade de marcar, jogando apenas do meio para frente. Ele estava tentando evoluir nesse aspecto.

Depois de ter passado esse tempo no Vitória e ter conhecimento do elenco que existe hoje no clube. Acredita que o time presente hoje no clube é limitado?

Acredito que todos nós possuímos limitações, incluindo o elenco do Vitória. No entanto, também acho que esses problemas são superados com bastante dedicação, bastante trabalho e comprometimento. Eu tenho minhas limitações e sempre busco evoluir, todos nós temos e o Vitória não é diferente.

Com sua saída, o Vitória contratou Geninho que foi o quinto comandante na temporada em nove meses. Acredita que exista uma falha de planejamento por parte da diretoria?

É difícil falar nesse sentido. Infelizmente, acho que todo o contexto leva a crer que seja isso. Não dá para a cada 45 dias ter três, quatro treinadores no ano. Cada comandante possui sua ideia particular, suas ideias próprias. O jogador tem que assimilar tudo aquilo que é passado e, no final de tudo, acaba virando uma grande miscelânea na cabeça dele. A gente precisa de um ambiente seguro para produzir melhor. Tem que haver cobrança, tirar todo mundo da zona de conforto, mas ao mesmo tempo necessita que haja um ambiente propício para o desenvolvimento.

Fazendo uma projeção, qual você acha que pode ser o destino do Vitória no final do ano?

Eu aceitei o convite para trabalhar no Vitória porque vi a perspectiva e tinha esperanças e confiança de que poderia fazer um trabalho que levasse o time para a Série A. Primeiro, se manter na Série B, porque o momento era delicado. Creio que as chances matemáticas (de acesso) ainda existam, mas ela é muito pequena. O importante é garantir a manutenção e pensar no projeto para 2020.

Um dos grandes problemas do Vitória na temporada, tem sido as constantes ações trabalhistas que o clube vem sendo alvo. Com você, ainda existe alguma pendência por parte do clube?

Eu fui desligado no aeroporto na minha chegada, na quarta-feira. Legalmente, eles têm dez dias para proceder o pagamento de todo o processo. Estou no aguardo, o Alarcon também já me ligou. Então, eu acredito que dentro de alguns dias deve estar tudo resolvido.

A partir de agora, quais são seus planos para o futebol? Pretende se manter nas divisões de formação, sair do Brasil…

Pra mim, não existe problema nenhum em trabalhar com a base. Sempre fui um formador e vejo como algo muito positivo. Só que eu dei um tempo para mim mesmo, para esse novo desafio e isso vai me engrandecer muito. O primeiro clube que me deu essa oportunidade foi o Vitória e eu espero na sequência ter ainda mais experiências. Eu organizei minha vida para seguir no futebol profissional.

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